quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

28. Decamerão



Escrito entre 1348 e 1353 por Giovanni Bocaccio, o "Decamerão" é um conjunto de cem novelas sobre os mais variados temas da vida humana. A maior contribuição que me trouxe foi entender que o ser humano sempre foi o que é. Que certas coisas sempre existiram (pelo menos nos últimos setecentos anos) e provavelmente vão sempre existir, pois são fruto das paixões humanas, daquilo que não se pode controlar.

Vamos começar pelo que considero até menos surpreendente, a questão da infidelidade, em particular, a feminina. Muitos episódios falam de damas supostamente virtuosas e esposas ditas honestas que realizam façanhas sexuais dignas de nota (o sétimo dia, aliás, reúne dez histórias inteiramente dedicadas às burlas cometidas pelas esposas contra seus maridos).

Curiosamente, porém, este livro da Idade Média é bem menos moralista que muitos romances do século XIX e XX. Se em obras como Madame Bovary, Ana Karênina, o Primo Basílio ou Lady Chatterley's Lover as adúlteras têm sempre um quê de loucas, uma trajetória dramática ou um fim trágico, ou tudo isso junto, no Decamerão, a tônica é outra; elas desfrutam das delícias do amor sem remorso, entregam-se menos por um sentimento elevado de paixão que por desejos do ventre, mas no mais das vezes se dão bem no final. A coisa mais parecida com isso que já havia lido antes foi "Gabriela, cravo e canela", cuja protagonista, no entanto, não deixou de levar "uma surra de criar bicho" de seu Nacib, no fim das contas...

Outros temas também hoje tabu no campo da sexualidade, como a zoofilia e a necrofilia, são o pano de fundo de algumas histórias, caso, respectivamente, da décima novela do nono dia (quando o padre Gianni diz que vai realizar o feitiço destinado a transmudar a esposa do cumpadre Pedro em égua) e da quarta novela do décimo dia (embora o tema seja a nobre generosidade do senhor Gentil dei Carisendi, que devolve a Niccoluccio Caccanimico sua esposa tida como morta, o fato é que ele havia descoberto que ela fora enterrada viva porque a havia retirado da sepultura para... "amá-la").

Na oitava novela do oitavo dia, após uma trama envolvendo dois casais vizinhos, cada um dos maridos fica com duas esposas, e cada esposa, com dois maridos; e na décima novela do quinto dia, o amante deixa a casa da mulher casada sem saber se durante toda a noite serviu a ela ou a seu marido, Pedro de Vinciolo, que não era muito chegado àquilo que gostam, ou devem gostar, os homens... parece até enredo daquelas histórias publicadas em revistas femininas de quinta (ou "semanais populares", no jargão dos marqueteiros) para espicaçar a imaginação de respeitáveis donas de casa. Mas não se vexem de ler o livro, que tudo isso, por incrível que pareça, é descrito com galhardia.

Uma coisa curiosa que notei é que muitas piadas que circulam por email nos dias de hoje são histórias do Decamerão (sabe aquela em que a esposa vai atender a porta enrolada numa toalha de banho, vê que é o melhor amigo do marido e ouve dele a proposta "te dou cinco mil reais se deixar cair a toalha"? E depois de aceitar descobre que aquele dinheiro nada mais era que uma devolução do amigo ao marido? Pois é...). Fora autores de livros infantis que recontam novelas do Decamerão sem dizer a fonte... fico sem saber se por malícia ou ignorância mesmo.

Acredito que esta obra reflete um momento de transformação na Idade Média, pois muitos dos relatos se opõem frontalmente à concepção religiosa que permeava o mundo de então. As novelas que debocham descaradamente das figuras de frades, bispos, freiras, padres, etc e das concepções misticistas daquela época são particularmente interessantes. Nota-se que homens lúcidos, como Boccacio, sempre existiram também.

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