As linhas seguintes fogem à proposta deste blog de ser uma análise de leituras. Trata-se de crônica de um encontro que se passou no 21 de janeiro de 2010. Como os blogs fazem as vezes de diários virtuais, creio que não há nada demais em querer deixar registrado esse dia tão prosaico e ao mesmo tempo tão especial, quando, à uma mesa do restaurante do Jockey Club, à hora do almoço, sentaram-se duas pessoas que eu tencionava reunir já há algum tempo.
De um lado, Feliks Zalcman, analista de sistemas da Petrobras que há mais de quatro décadas se dedica à informática na petrolífera brasileira, protagonizando alguns de seus momentos decisivos. Nascido no ano de 1941 em Iecaterimburgo, cidade russa que no passado soviético chamou-se Sverdlovsk, migrou com a família para o Brasil no ano de 1960, fugindo à perseguição política – seu pai, que chegou a ser uma liderança no Partido Comunista, tornara-se um dia um dissidente.
Conheci Feliks por conta de atividades profissionais; trabalhando na área de comunicação da unidade de Tecnologia da Informação e Telecomunicações, fiz dele um perfil para divulgação num veículo de mídia interno em novembro de 2009. Foram quatro dias de entrevistas, ao longo dos quais me tornei uma fã de seu trabalho e personalidade.
Do outro lado da mesa, Luiz Carlos Ribeiro Prestes, que atua na área de desenvolvimento econômico do Governo do Estado do Rio de Janeiro. Carioca, nascido em 1959 no bairro de Jacarepaguá, migrou com a família para a União Soviética no ano de 1970 devido à perseguição política – seu pai, Luiz Carlos Prestes, liderança no Partido Comunista Brasileiro, tornara-se um clandestino desde o golpe de 1964.
Conheci Luiz Carlos por conta de atividades profissionais; trabalhando no Centro de Referência em Inteligência Empresarial da Coppe/UFRJ, fui designada para entrevistá-lo quando do lançamento do livro “Cadeia Produtiva da Economia da Música”, em dezembro de 2004. Foi uma tarde inteira de entrevista e, insuspeitadamente àquela época, alguns anos mais tarde viria a me tornar sua mulher e mãe orgulhosa de sua filha caçula, Melinda Prestes.
Os ásperos das divergências ideológicas ficam de lado. Em seu lugar, despontam as memórias identitárias, o sem número de referências culturais comuns - poéticas, musicais, midiáticas, políticas. Alguns nomes raramente conhecidos do lado de cá do globo. O repertório de piadas, em especial, produz (hilária) identidade...
Lamento não ter registrado em imagem aquela tarde clara, a luz imensa de janeiro do Rio vencendo o voal das cortinas. Mas talvez tenha sido melhor assim; talvez não fosse tão belo ou tão relevante para o resto do mundo virtual o semblante tranquilo daqueles dois presentes. A intimidade dos significados dentro de uma alma, no fim das contas, nunca pode ser de fato devassada.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
2010/01 - A Alma Encantadora das Ruas
A mais baixa pária da sociedade carioca, aquela gente sem eira nem beira, desgraçada mesmo, lupemproletariat: essa é a matéria prima a partir da qual João do Rio escreve as crônicas reunidas em “A Alma Encantadora das Ruas”, que comecei a ler ainda no ano passado, presente de aniversário do meu enteado e sua esposa.
João do Rio (pseudônimo de Paulo Barreto) teve estômago para ver de perto uma cidade ignorada dentro da cidade. Vasculhou os meandros mais infectos e travou conhecimento com aqueles seres que costumeiramente olhamos de canto de olho, com fingida indiferença, carregando um quê de repúdio e um outro tanto de curiosidade.
Já disse noutro tópico que Lima Barreto descreve em “Clara dos Anjos” o Rio de Janeiro dos subúrbios que raro vemos em Machado de Assis; já João do Rio, em “A Alma...”, retrata o Rio das sarjetas, dos cantos obscuros, abafados e fétidos. Digamos que, enquanto Machado de Assis fala de um Rio nobre, Lima Barreto fala de um Rio pobre e João do Rio chega a um Rio miserável.
Ele descreve o descaminho das gentes estrangeiras em sua própria cidade, cujos dramas não chegam a comover nem interessar a ninguém - quando muito, estarrecem como um fait diver. Mas é meritoso da parte do autor o dar-lhes um registro na memória, e um nome também; ainda que suas trajetórias se repitam numa poeira sem identidade, ainda que não tenham importância em sua individualidade, o jornalista faz questão de nomear cada uma das personagens que povoam suas crônicas.
Curiosamente, essa massa esquecida consegue se reproduzir ao longo das décadas: escrito nos primeiros anos do século XX, os cenários narrados por João do Rio em “A Alma encantadora das Ruas” são essencialmente idênticos a muitos dos que nos rodeiam até hoje, mais de cem anos depois: mendicância, vício, misérias mil.
A princípio, estranhei um pouco o estilo muito palavrório e enfeitado do autor. Alguns textos mais parecem panfletos. Mas acho que seu escrever não destoa muito da maior parte dos jornalistas/escritores da época. João do Rio, ao que parece, sintetizou os vícios e as virtudes dos jornalistas de então.
Quem foi João do Rio?
A questão veio à baila durante um churrasco em família, por um grupo que vai desfilar no Império Serrano este ano e não quer fazer feio se as equipes de reportagem que acompanham o desfile eventualmente fizerem umas perguntinhas.
Bem, eu conhecia o trabalho do autor dos tempos de faculdade, mas a vontade de conhecê-lo melhor veio mesmo após a leitura de História da Imprensa no Brasil. Não é que Werneck Sodré renda muitas homenagens a João do Rio, mas, segundo ele, ao lado de Alcindo Guanabara, Paulo Barreto seria uma das figuras dominantes e mesmo caracterizadoras da imprensa brasileira no início do século XX, sendo aquele “mais jornalista que escritor” e este, “mais escritor que jornalista”.
Caracterizado como “misto de suíno e símio” no romance “Recordações do escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto (espécie de sátira meio ressentida do jornalismo de então), definido como “volumoso, beiçudo, muito moreno, liso de pêlo”, no dizer do colega de jornalismo e ABL Gilberto Amado, João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Barreto (1881-1921) foi, no entender de Wenerck Sodré, um desses homens de muito talento que, no entanto, se perdem nos deslumbres da fama e da glória:
“Membro da academia, lido, admirado, Paulo Barreto preocupava-se apenas em administrar essa glória. E há poucos exemplos, mesmo num país de glórias efêmeras como o nosso, nessa época, de sucesso tão transitório, apesar de tão brilhante. Como todos os que colocam as suas energias mais na vida literária do que na obra literária, Paulo Barreto brilhou e passou – apagou-se depressa”.
É claro que para nós, que assistimos há cerca de uns dez anos a uma retomada do interesse por sua obra (vide, aliás, a escolha como enredo para um desfile de escola de samba), essa sentença de Werneck Sodré pode parecer injusta ou equivocada. Mas é preciso compreender que, para aqueles que assistiram ao apogeu do autor, deve ter sido curioso observar o posterior silêncio, que durou quase um século, acerca de sua obra.
Faça-se, por exemplo, rápida comparação com Lima Barreto: seus romances, por vezes, foram impiedosamente boicotados pelos grandes jornais da época; nunca chegou a ser admitido na ABL, apesar de sem-número de tentativas; morreu pobre e sem juízo. O tempo passou, foi-se a matéria, ficou a glória. Hoje, reconhecido, é leitura obrigatória até nas escolas.
Faz pensar nos artistas contemporâneos que investem mais em marketing e holofotes que na qualidade do seu trabalho. Gente de algum talento, até, mas que, para infelicidade da humanidade, são mais afeitos à cor do dinheiro que ao valor das suas obras.
Nada contra ganhar dinheiro produzindo cultura, afinal, grandes mestres como Da Vinci, Shakespeare e Dumas produziam, sobretudo, como forma de obter sustento e renda. Mas conciliavam essa necessidade pecuniária a um trabalho realmente genial. O que não é o caso de muito pseudoartista famoso de atualmente.
João do Rio (pseudônimo de Paulo Barreto) teve estômago para ver de perto uma cidade ignorada dentro da cidade. Vasculhou os meandros mais infectos e travou conhecimento com aqueles seres que costumeiramente olhamos de canto de olho, com fingida indiferença, carregando um quê de repúdio e um outro tanto de curiosidade.
Já disse noutro tópico que Lima Barreto descreve em “Clara dos Anjos” o Rio de Janeiro dos subúrbios que raro vemos em Machado de Assis; já João do Rio, em “A Alma...”, retrata o Rio das sarjetas, dos cantos obscuros, abafados e fétidos. Digamos que, enquanto Machado de Assis fala de um Rio nobre, Lima Barreto fala de um Rio pobre e João do Rio chega a um Rio miserável.
Ele descreve o descaminho das gentes estrangeiras em sua própria cidade, cujos dramas não chegam a comover nem interessar a ninguém - quando muito, estarrecem como um fait diver. Mas é meritoso da parte do autor o dar-lhes um registro na memória, e um nome também; ainda que suas trajetórias se repitam numa poeira sem identidade, ainda que não tenham importância em sua individualidade, o jornalista faz questão de nomear cada uma das personagens que povoam suas crônicas.
Curiosamente, essa massa esquecida consegue se reproduzir ao longo das décadas: escrito nos primeiros anos do século XX, os cenários narrados por João do Rio em “A Alma encantadora das Ruas” são essencialmente idênticos a muitos dos que nos rodeiam até hoje, mais de cem anos depois: mendicância, vício, misérias mil.
A princípio, estranhei um pouco o estilo muito palavrório e enfeitado do autor. Alguns textos mais parecem panfletos. Mas acho que seu escrever não destoa muito da maior parte dos jornalistas/escritores da época. João do Rio, ao que parece, sintetizou os vícios e as virtudes dos jornalistas de então.
Quem foi João do Rio?
A questão veio à baila durante um churrasco em família, por um grupo que vai desfilar no Império Serrano este ano e não quer fazer feio se as equipes de reportagem que acompanham o desfile eventualmente fizerem umas perguntinhas.
Bem, eu conhecia o trabalho do autor dos tempos de faculdade, mas a vontade de conhecê-lo melhor veio mesmo após a leitura de História da Imprensa no Brasil. Não é que Werneck Sodré renda muitas homenagens a João do Rio, mas, segundo ele, ao lado de Alcindo Guanabara, Paulo Barreto seria uma das figuras dominantes e mesmo caracterizadoras da imprensa brasileira no início do século XX, sendo aquele “mais jornalista que escritor” e este, “mais escritor que jornalista”.
Caracterizado como “misto de suíno e símio” no romance “Recordações do escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto (espécie de sátira meio ressentida do jornalismo de então), definido como “volumoso, beiçudo, muito moreno, liso de pêlo”, no dizer do colega de jornalismo e ABL Gilberto Amado, João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Barreto (1881-1921) foi, no entender de Wenerck Sodré, um desses homens de muito talento que, no entanto, se perdem nos deslumbres da fama e da glória:
“Membro da academia, lido, admirado, Paulo Barreto preocupava-se apenas em administrar essa glória. E há poucos exemplos, mesmo num país de glórias efêmeras como o nosso, nessa época, de sucesso tão transitório, apesar de tão brilhante. Como todos os que colocam as suas energias mais na vida literária do que na obra literária, Paulo Barreto brilhou e passou – apagou-se depressa”.
É claro que para nós, que assistimos há cerca de uns dez anos a uma retomada do interesse por sua obra (vide, aliás, a escolha como enredo para um desfile de escola de samba), essa sentença de Werneck Sodré pode parecer injusta ou equivocada. Mas é preciso compreender que, para aqueles que assistiram ao apogeu do autor, deve ter sido curioso observar o posterior silêncio, que durou quase um século, acerca de sua obra.
Faça-se, por exemplo, rápida comparação com Lima Barreto: seus romances, por vezes, foram impiedosamente boicotados pelos grandes jornais da época; nunca chegou a ser admitido na ABL, apesar de sem-número de tentativas; morreu pobre e sem juízo. O tempo passou, foi-se a matéria, ficou a glória. Hoje, reconhecido, é leitura obrigatória até nas escolas.
Faz pensar nos artistas contemporâneos que investem mais em marketing e holofotes que na qualidade do seu trabalho. Gente de algum talento, até, mas que, para infelicidade da humanidade, são mais afeitos à cor do dinheiro que ao valor das suas obras.
Nada contra ganhar dinheiro produzindo cultura, afinal, grandes mestres como Da Vinci, Shakespeare e Dumas produziam, sobretudo, como forma de obter sustento e renda. Mas conciliavam essa necessidade pecuniária a um trabalho realmente genial. O que não é o caso de muito pseudoartista famoso de atualmente.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
30. Breve romance de sonho
Trigésimo e último livro de 2009 (concluí a leitura exatamente no dia 31 de dezembro). Penso que muitos casais poderiam lê-lo juntos como forma de complementar ou inaugurar uma terapia de casal, ou pelo menos para criar coragem de lançar um olhar e trocar palavras sobre temas, no mais das vezes, vertiginosos.
Mesmo quem não tem tempo vai arranjar algum, porque o "Breve" do título faz juz à realidade: são menos de cem páginas, com uma atmosfera de suspense, e a tradução de Sérgio Tellaroli me pareceu muito boa. O texto está rico no que diz respeito ao português. Se foi fiel ao alemão original, isso não sei dizer (ainda!).
Foi o primeiro livro de Arthur Schnitzler que li na vida, não conhecia este autor admirado por Freud, e gostei muito.
Mesmo quem não tem tempo vai arranjar algum, porque o "Breve" do título faz juz à realidade: são menos de cem páginas, com uma atmosfera de suspense, e a tradução de Sérgio Tellaroli me pareceu muito boa. O texto está rico no que diz respeito ao português. Se foi fiel ao alemão original, isso não sei dizer (ainda!).
Foi o primeiro livro de Arthur Schnitzler que li na vida, não conhecia este autor admirado por Freud, e gostei muito.
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
29. Lavoura arcaica
Esbarrei com este livro nas estantes da minha querida tia Léia quando havia acabado de fraturar um dedo do pé num acidente doméstico. Imobilizada, logo no primeiro dia passei da metade. Até então nunca havia lido nada de Raduan Nassar.
Gostei do estilo do autor, mas fiquei meio decepcionada com a trama em si.
Raduan Nassar tem o dom da palavra; embora o texto seja rico em adjetivos e advérbios, cada palavra parece ter sido muito bem calculada, cada expressão tem significado preciso, cada termo tem um papel a cumprir. Parece poesia em prosa. É bem diferente de "A Sombra do Vento", por exemplo, cujas páginas exigem um pouco de esforço para quem não tem muita paciência para lero-lero, pois Zafón é meio palavroso, muitas vezes usa as palavras de modo menos informativo que decorativo. Nassar consegue conciliar as duas coisas. Tem um quê de Clarice Lispector, de deixar o leitor encafifado, "foi isso mesmo o que eu entendi?", "Foi". "Ou talvez".
Quanto à trama... aí achei meio sem graça. Bateu uma sensação similar àquela que tive quando da leitura de "Complexo de Portnoy", de Philip Roth, de que certos temas podem ter sido surpreendentes trinta anos atrás, mas hoje, não escandalizam os 'mudernos'. Vide os aplausos para o filme "Do Começo ao Fim", de Aloizio Abranches.
Mas não faz mal, fiquei com vontade de ler mais livros de Nassar só pelo modo como ele explora a língua portuguesa.
Gostei do estilo do autor, mas fiquei meio decepcionada com a trama em si.
Raduan Nassar tem o dom da palavra; embora o texto seja rico em adjetivos e advérbios, cada palavra parece ter sido muito bem calculada, cada expressão tem significado preciso, cada termo tem um papel a cumprir. Parece poesia em prosa. É bem diferente de "A Sombra do Vento", por exemplo, cujas páginas exigem um pouco de esforço para quem não tem muita paciência para lero-lero, pois Zafón é meio palavroso, muitas vezes usa as palavras de modo menos informativo que decorativo. Nassar consegue conciliar as duas coisas. Tem um quê de Clarice Lispector, de deixar o leitor encafifado, "foi isso mesmo o que eu entendi?", "Foi". "Ou talvez".
Quanto à trama... aí achei meio sem graça. Bateu uma sensação similar àquela que tive quando da leitura de "Complexo de Portnoy", de Philip Roth, de que certos temas podem ter sido surpreendentes trinta anos atrás, mas hoje, não escandalizam os 'mudernos'. Vide os aplausos para o filme "Do Começo ao Fim", de Aloizio Abranches.
Mas não faz mal, fiquei com vontade de ler mais livros de Nassar só pelo modo como ele explora a língua portuguesa.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
28. Decamerão

Escrito entre 1348 e 1353 por Giovanni Bocaccio, o "Decamerão" é um conjunto de cem novelas sobre os mais variados temas da vida humana. A maior contribuição que me trouxe foi entender que o ser humano sempre foi o que é. Que certas coisas sempre existiram (pelo menos nos últimos setecentos anos) e provavelmente vão sempre existir, pois são fruto das paixões humanas, daquilo que não se pode controlar.
Vamos começar pelo que considero até menos surpreendente, a questão da infidelidade, em particular, a feminina. Muitos episódios falam de damas supostamente virtuosas e esposas ditas honestas que realizam façanhas sexuais dignas de nota (o sétimo dia, aliás, reúne dez histórias inteiramente dedicadas às burlas cometidas pelas esposas contra seus maridos).
Curiosamente, porém, este livro da Idade Média é bem menos moralista que muitos romances do século XIX e XX. Se em obras como Madame Bovary, Ana Karênina, o Primo Basílio ou Lady Chatterley's Lover as adúlteras têm sempre um quê de loucas, uma trajetória dramática ou um fim trágico, ou tudo isso junto, no Decamerão, a tônica é outra; elas desfrutam das delícias do amor sem remorso, entregam-se menos por um sentimento elevado de paixão que por desejos do ventre, mas no mais das vezes se dão bem no final. A coisa mais parecida com isso que já havia lido antes foi "Gabriela, cravo e canela", cuja protagonista, no entanto, não deixou de levar "uma surra de criar bicho" de seu Nacib, no fim das contas...
Outros temas também hoje tabu no campo da sexualidade, como a zoofilia e a necrofilia, são o pano de fundo de algumas histórias, caso, respectivamente, da décima novela do nono dia (quando o padre Gianni diz que vai realizar o feitiço destinado a transmudar a esposa do cumpadre Pedro em égua) e da quarta novela do décimo dia (embora o tema seja a nobre generosidade do senhor Gentil dei Carisendi, que devolve a Niccoluccio Caccanimico sua esposa tida como morta, o fato é que ele havia descoberto que ela fora enterrada viva porque a havia retirado da sepultura para... "amá-la").
Na oitava novela do oitavo dia, após uma trama envolvendo dois casais vizinhos, cada um dos maridos fica com duas esposas, e cada esposa, com dois maridos; e na décima novela do quinto dia, o amante deixa a casa da mulher casada sem saber se durante toda a noite serviu a ela ou a seu marido, Pedro de Vinciolo, que não era muito chegado àquilo que gostam, ou devem gostar, os homens... parece até enredo daquelas histórias publicadas em revistas femininas de quinta (ou "semanais populares", no jargão dos marqueteiros) para espicaçar a imaginação de respeitáveis donas de casa. Mas não se vexem de ler o livro, que tudo isso, por incrível que pareça, é descrito com galhardia.
Uma coisa curiosa que notei é que muitas piadas que circulam por email nos dias de hoje são histórias do Decamerão (sabe aquela em que a esposa vai atender a porta enrolada numa toalha de banho, vê que é o melhor amigo do marido e ouve dele a proposta "te dou cinco mil reais se deixar cair a toalha"? E depois de aceitar descobre que aquele dinheiro nada mais era que uma devolução do amigo ao marido? Pois é...). Fora autores de livros infantis que recontam novelas do Decamerão sem dizer a fonte... fico sem saber se por malícia ou ignorância mesmo.
Acredito que esta obra reflete um momento de transformação na Idade Média, pois muitos dos relatos se opõem frontalmente à concepção religiosa que permeava o mundo de então. As novelas que debocham descaradamente das figuras de frades, bispos, freiras, padres, etc e das concepções misticistas daquela época são particularmente interessantes. Nota-se que homens lúcidos, como Boccacio, sempre existiram também.
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Decamerão,
Giovanni Bocaccio,
Século XIV
27. The collector

Do you know those books whose covers are so inexpressive that you don’t expect to find anything great within them? But then you go on and you find out they actually enshrine a treasure? This happened to me when I decided to turn the first pages of “The collector”.
It’s not necessary to be an avid reader to finish it in a few hours. The author manages to tell a curious and electrifying story in an innovative style and using a few pages – the number could not be more appropriate.
[A quick digression: I believe some books are shorter than they should be whereas others are longer than they should. Among the formers I place “The picture of Dorian Gray” and among the latter “The lord of the rings”].
Back to the point: “The collector” describes the case of a maniac who manages to kidnap the woman he’s in love with (tough he doesn’t really know her). Actually, it’s not exactly a description, but a first person narrative, with the additional element that it is told from the point of view of the kidnapper and also of his victim.
The maniac in case is particularly different from any other I had ever seen on TV shows, movies and books. He’s disgusting, of course, but in a different way; you don’t feel like hating him, you feel like despising him, just the way his victim does. But you surely will feel like despising the victim either.
One of the most interesting moments happens when she encourages him to read “The catcher in the rye”. Due to her prejudicial and limited point of view, she believes that he’s going to identify himself with the young Holden Caulfield and that it is going to make all the difference for her… poor creature. His opinion over the book – he simply doesn't “see much point in it” – sounds hilarious.
Please, don’t think that I don’t sympathize with the victim. Despite her “la-di-da voice” and snobbish ways she didn’t deserve to go through what she did. It is just that the whole story is so unreal that I don’t feel bad at involuntarily laughing at it. Maybe I'm still shocked with the end of the story.
26. Le comte de Monte-Cristo
Le comte de Monte Cristo a été le premier livre que j'ai lu completement en français. Je peux dire que j'ai commencé a apprendre cette belle langue en lisant cette ouevre d'art. Cependant la lecture, j'écoutais l'audiobook (voyez le website www.librivox.org).
Le mariage du style de Alexandre Dumas et de l'histoire d'Auguste Maquet a produit un de les mieux travails que j'ai connu dans la literatture ocidental. Un bon écrivain ne peut pas se considerer comme tell si il n'a pas lu cette ouevre.
(Doit être continué...)
Le mariage du style de Alexandre Dumas et de l'histoire d'Auguste Maquet a produit un de les mieux travails que j'ai connu dans la literatture ocidental. Un bon écrivain ne peut pas se considerer comme tell si il n'a pas lu cette ouevre.
(Doit être continué...)
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