quinta-feira, 6 de março de 2008


A Travessia de Lígia Jacques e de Rogério Leonel...
por Conservatória
Texto de Clarissa Alves Machado e Luiz Carlos Prestes Filho
Legenda da fotografia: O casal Ligia Jacques e Rogério Leonel
com o seresteiro Joubert de Freitas


“Sentimos em Conservatória que estamos vivos, que a nossa arte vai sobreviver aos tempos. Como seria importante para os músicos de Belo Horizonte sentir o que sentimos neste momento. Aqui não é a mídia que manda. Aqui se preserva o DNA da nossa canção de amor”, desabafou, entre um gole e outro de cachaça, Rogério Leonel, no Restaurante Dó-Ré-Mi, local de encontros poético-musicais no centro de Conservatória. Visitando a Capital das Serestas e Serenatas pelo projeto VIVA O COMPOSITOR da UBC, ao lado da cantora Lígia Jacques, sua companheira de vida e de profissão, o músico era a própria confirmação das profecias de José Borges: “Virá um futuro em que os compositores e músicos profissionais virão ouvir os seresteiros para sentir o sabor da improvisação, do amadorismo, das vozes desafinadas, mas cheias de amor e espontaneidade que faltam no mundo de negócios musicais”.

Lígia, que comparou a seresta a um ritual “quase religioso, parecido com a comunhão da meditação”, cantou para o seresteiro Joubert – irmão mais moço de José Borges, que com ele fundou a tradição da serenata – logo no primeiro dia de sua viagem a Conservatória. Ao conhecer, no Museu da Seresta, a cantora mineira que desde os fins da década de 70 atua no cenário musical de Belo Horizonte, Joubert lhe pediu que mandasse um beijo para todas as mulheres de BH – para os homens, mandou apenas um “cruz credo”.

“Casamos na música”

A parceria musical de Rogério e Ligia começou em 1979. Naquele ano, seria realizado o Festival de Música da UFMG (onde Ligia então cursava Biblioteconomia), e ela foi convidada para cantar a canção que ele havia preparado para o festival. “O primeiro arranjo vocal de música popular que eu fiz, foi a primeira que ela cantou”, conta ele. Os dois se conheceriam no “Bar do Tadeu”, ponto de referência dos músicos de Belo Horizonte.

Por essa época, Rogério – filho de um sanfoneiro do interior de Minas, que aos dez anos ganhara o primeiro violão e aos treze “tirava de ouvido” grandes artistas – já vivia de música, enquanto Ligia começava a se integrar a esse universo, atuando junto ao “Grupo Mambembe” (ligado a outros importantes nomes da música mineira, como Toninho Camargo, Ricardo Faria e Titane). “Rogério influenciou e desenvolveu a minha trajetória”, diz Ligia, a quem as turnês levariam a se apresentar em cidades como Brasília, São Paulo, Campinas e, no interior de Minas, Januária e Itambacuri.

Museu Vicente Celestino

As imagens nas paredes do Museu Vicente Celestino, atraíram a atenção do casal, por remeter a um universo de 80 anos atrás. Entre as peças em exposição, o figurino do filme “O Ébrio”, o piano de Vicente Celestino – sobre o qual há um antigo e amarelecido livro de partituras editadas pela UBC –, prêmios de Jorge Goulart e Nora Ney, documentos de Silvio Caldas e Clara Nunes, figurinos de Gilda Abreu e Emilinha Borba. Universos que poderiam ter desaparecido se não fossem os cuidados de Wolney Porto, curador do museu: “Hoje meu trabalho está cada vez mais técnico, seco. Tento não me angustiar com tantos fragmentos de nossa História que estão desaparecendo por falta de apoio financeiro. Tem meses que não tenho recursos para comprar material para combater fungos e cupins. Até mesmo a conta de telefone já foi cortada. Mas essa é a vida de quem trabalha com a memória nacional. Já me conformei. Tento não me emocionar mais”, diz.

“Tenha certeza Wolney”, rebateu Rogério, “que seu trabalho é importante por este lado do sacerdócio. Por demonstrar que nada nesta vida tem somente o valor do dinheiro. Existe no seu museu Vicente Celestino o valor da energia, o valor da ‘sentimentação’, o valor do simbolismo. É uma força enorme que envolve até o visitante apressado, que termina abatido pelo encantamento”, disse emocionado. Durante a visita, a presença da atmosfera da Rádio Nacional, especialmente na área dedicada ao casal Jorge Goulart e Nora Ney, lhe fez lembrar do tempo em que sintonizava o rádio para ouvir o irmão mais velho, Antônio, cantar num programa realizado na cidade mineira de Passos. O irmão, já falecido, era dez anos mais velho e “tinhoso, não perdia uma briga”, o que lhe valeu o apelido desde pequeno de “Antônio Lampião”.

Para o casal, que trabalha com o repertório da MPB, o Museu Clube da Esquina, em Belo Horizonte, é bem diferente dos museus de Conservatória, que ficam abertos nas madrugadas, esperando a passagem dos seresteiros e, conseqüentemente, dos turistas. “O Museu Clube da esquina tem ciclos de palestras, reúne compositores e músicos que fizeram parte daquele movimento cultural, divulga o conteúdo de toda uma geração, mas não tem esse diálogo mágico que o Wolney criou. Penso que haveria espaço para um intercâmbio super-positivo entre as instituições”, diz Rogério. “Quem sabe poderíamos lá organizar um ciclo sobre a serenata de Conservatória, que promoveu o desenvolvimento econômico e social da localidade, e o Clube da Esquina, que interferiu nos processos políticos e estéticos de todo o Brasil nos anos70?”, sugere.

Baião Barroco

Na seresta da Pousada Sol Maior, Rogério acompanhou Ligia na interpretação de Baião Barroco, música de Juarez Moreira letrada por Simone Guimarães, criada em 1989. Nas mãos, o violão feito sob medida na oficina de Vergílio Lima, de Sabará, com afinação “Rio Abaixo”:

“... Chama o povo que a noite estrelou / Vidro de fogo e vento de palmeira / Um homem saiu de dentro de uma estrela / E me dizia o teu nome, o teu nome, o teu nome... / O teu nome, o teu nome / Então um anjo voou da boca de um cantor / É meu canto de amor ...”

Além de Juarez Moreira, outros nomes destacados pelo casal no cenário musical da BH de hoje são Toninho Horta (um dos fundadores do Grupo Mambembe, cuja poesia tem forte ligação com a de Noel Rosa), Ladston do Nascimento, Sérgio Santos (parceiro de Paulo César Pinheiro), Flávio Henrique, Weber Lopes, Oiliam Lana (destaque da música erudita mineira), a cantora Loslena (que tem resgatado os trabalhos de Zé Neto, indigenista e poeta, autor de “Paraisagem”), e Hufo Herrera, argentino há vinte anos radicado em BH. Ligia considera que o crescimento da produção musical dos últimos anos é parte de um movimento geral: “A música instrumental cresceu depois da regulamentação da Lei de Incentivo à Cultura de Minas Gerais, que estimulou a produção de CDs e espetáculos”.

As experiências do casal no ensino de música e canto (Ligia atua como professora de canto e preparadora vocal; Rogério leciona música em escolas, como o tradicional Colégio Estadual Milton Campos) lhes permite acompanhar o desenvolvimento das futuras gerações na música. Na opinião do professor Rogério, harmonia é um dos desafios para a maioria dos músicos. “Há aqueles que têm harmonia, mas não têm poesia, e aqueles que têm poesia, mas não conseguem ter harmonia”.

Sobre a arrecadação de direitos autorais dos compositores, músicos, arranjadores e intérpretes mineiros, ainda incipiente diante de sua importância, os dois pensam que se deve à falta de uma cultura de valorização da importância da gestão de bens intangíveis: “Existe uma dificuldade no entendimento do papel estratégico dos direitos autorais. Os valores de arrecadação e de distribuição, dizem alguns profissionais, são baixos e isso faz eles não correrem atrás de informações sobre o tema”.

Travessia

“Quando você foi embora, fez-se noite o meu viver...”. Antes de partir de Conservatória, Ligia prestigiou as pessoas à sua volta cantarolando a conhecida música de Milton Nascimento e do amigo do casal Fernando Brant: “Brant não deve ter noção do que se fez nestas terras pela música brasileira, inclusive, pelas canções que ele compôs. Quando vemos as centenas de placas que contêm o título e o nome do autor de uma canção, afixadas nas fachadas das casas de Conservatória, o coração diz que ele tem que conhecer este lugar. O Fernando tem que viver estas placas inauguradas por um Dorival Caimmy, Paulinho Tapajós, Edmundo Souto, João Roberto Kelly, J .Junior, Beth Carvalho. Ele vai adorar ouvir as vozes desafinadas cheias de amor e espontaneidade”

Disco:

Choro Barroco (2001)

Fontes:
Site oficial Ligia Jacques
http://www.ligiajacques.com.br/

Site da oficina do Luthier Vergílio Lima
http://br.geocities.com/vergilioarturlima/

Museu Clube da Esquina
http://www.museudapessoa.net/clube/index.shtml

Letra de Baião Barroco
http://letras.terra.com.br/simone-guimaraes/608926/

Fotografia: Lena Bela

Apoiadores do projeto VIVA O COMPOSITOR:

Hotel Fazenda Rochedo

Pousada Serras Verdes

Pousada Sol Maior

Pousada Martinez

Restaurante Dó-Ré-Mi

Transportes Juarez de Brito
(21) 2473-1417 / (21) 9715-2511 / (21) 9911-1221

Museu da Seresta

*Os autores: Clarissa Alves Machado é jornalista. Luiz Carlos Prestes Filho é diretor de filmes documentários para TV e cinema.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

A Sanfona invade a cidade das Serestas e Serenatas

O sanfoneiro Zé Calixto, sócio da UBC há 40 anos, visita Conservatória, capital brasileira da música
Texto de Clarissa Alves Machado e Luiz Carlos Prestes Filho*

"Tocar uma sanfona de oito baixos é mais difícil que acordeão. Até porque não tem mestre para ensinar", gaba-se, orgulhoso, o sanfoneiro Zé Calixto para o seresteiro Odilon Parente, proprietário da pousada "Sol Maior", localizada na Capital das Serestas e Serenatas, Conservatória.

"Mas nossa localidade", rebate Odilon, "é original e impossível de ser copiada, apesar de muito pequenina como sua sanfona de oito baixos. E não adianta levar nossos seresteiros para Diamantina, Parati ou Ouro Preto, somente o nosso casario imperial, somente este pano de fundo, faz brotar e morrer a magia das canções de amor todos finais de semana".

O sanfoneiro sorri matreiro e responde que a sorte então está do seu lado, pois se Conservatória tem que ser visitada para ser conhecida, seu instrumento tem muita mobilidade, pode invadir qualquer recanto deste Brasil, como a Feira de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, e as festas de São João de Mossoró, no Rio Grande do Norte: "Ninguém pode ignorar o poder deste meu pé-de-bode!"

Para a platéia da seresta que acontece todos os sábados entre as 18h e 20h na "Sol Maior", Zé Calixto explica melhor: "Qualquer tecla do acordeão, abrindo ou fechando, dá somente uma nota musical. Já na minha sanfona, abrindo a tecla dá uma nota, fechando faz outra. Isso afasta o caboclo fraco de imaginação e disciplina".

Parcerias de ouro

Acompanhado de sua mulher, Rita, ele se viu mergulhado nos aplausos daqueles para quem sua música e instrumento são referências da brasilidade. Natural da Paraíba, Zé Calixto conta que nasceu no dia 16/07/1933, mas que por um erro cometido no cartório foi registrado com a data de nascimento de um primo falecido, com quem passou os primeiros anos de vida. Os dois eram Zé, então o tabelião confundiu e colocou na certidão o dia 11/08/1935: "Assim fiquei mais jovem dois anos".

Do seu casamento, que no ano que vem completa 50 anos, vieram quatro filhos, oito netos e um bisneto. Sua filha caçula é afilhada do Gonzagão: "O Rei do Baião é um capítulo especial na minha vida. Com ele viajei por todo o nordeste e fiz os melhores São João de Campina Grande, cidade onde nasci e para onde vou todos os anos". Caso estivesse vivo, Gonzagão poderia ter sido o motorista que levaria Zé Calixto para Conservatória. "Para ele", lembra o amigo, "não havia mal tempo, estradas impossíveis de atravessar, sempre foi um cabra-macho decidido, fiel condutor da música e dos amigos".

Os dois tinham boa diferença de idade e se conheceram numa rádio em Campina Grande. Zé Calixto ofereceu para Gonzagão uma música de sua autoria, que o grande forrozeiro registrou em seu gravador de fita de rolo. Quando se encontraram um ano depois no Rio de Janeiro, para onde Zé Calixto veio em 1959, soube que a gravação tinha sido apagada acidentalmente: "Tudo bem, desenvolvemos a amizade, que é assim: através dos erros que conhecemos os amigos".

Ele voltou a evocar Luiz Gonzaga ao contar episódio em que, caminhando pelas ruas sonoras de Conservatória uma outra vez, foi questionado por uma moça sobre o seu "instrumentinho", que ela apreciara muito mas que nunca havia visto ou ouvido falar: "É... amiga, foi neste instrumentinho aqui que o pai do Gonzagão, o Januário, deu seus primeiros passos, assim como o próprio Luiz Gonzaga. O Sivuca e o Dominguinhos, o último, filho de afinador, também fizeram nele a glória da qual sou um humilde servidor".

Museu da Seresta e da Serenata

Durante a noite, no Museu da Seresta e da Serenata, no centro de Conservatória, Zé Calixto tocou com os violões centenários e fez pousar nos corações a "Asa Branca" com a Rosinha de verdes olhos. Membro da União Brasileira de Compositores (UBC), ele se sentiu feliz de ver nas paredes fotografias de colegas que por ali passaram: Edson Menezes, Bidú Reis, Raul de Barros, João Roberto Kelly, Bob Nelson e Getúlio Macedo. "Como compositor, desde 1968 sou membro da UBC, que protege meus direitos autorais. Criei choros, forrós e outros gêneros. A obra mais conhecida do Zé Calixto” – diz, falando de si na terceira pessoa – “é a gravação de 'Escadaria', que é sempre lembrada faz 45 anos. O autor é o Pedro Raimundo, eu fiz interpretar e por esta interpretação entrei na História da música brasileira. E cada vez que esta obra é levada pela TV, por uma rádio ou é reproduzida numa festa, ganho o que me é de direito como intérprete".

"Para os seresteiros, receber as visitas dessas personalidades emociona. Tem relação com o reconhecimento da importância de nossa localidade para a canção de amor que veneramos. Nossa missão é manter a canção viva, inclusive todas as obras dos compositores da UBC", afirma a seresteira Marluce, que nas madrugadas de sexta e sábado caminha na serenata ao lado de Joubert Freitas, um dos fundadores do movimento da seresta há 60 anos.

No Museu Vicente Celestino, Zé Calixto encontrou imagens daquele com quem viveu momentos inesquecíveis – Jackson do Pandeiro. "Eu conheci o Jackson ainda na Paraíba, acompanhando meu pai num Pastoril. Eu era um menino de 9 ou 10 anos, ele já era um homem feito. Comecei a tocar minha sanfona de oito baixos e lembro que ele ficava encantado com o menino aqui", conta o sanfoneiro.

O conterrâneo de Alagoa Grande acabaria se tornando seu colega de trabalho: "Depois o Jackson foi embora para o Rio e São Paulo. Cidades onde o reencontrei e onde resolvemos fazer uma temporada, onde gravamos com vários outros artistas. Terminamos formando a caravana ‘O Fino da Roça’, ao lado do Elino Julião, Genival Lacerda, Messias Holanda e muitos outros. O nordeste ficou aos nossos pés naquele ano".

Zé Calixto conta sua trajetória

Relembrando sua trajetória, Zé Calixto conta que foi aos oito anos que teve início sua amizade com a sanfona: "O meu pai, que a vida toda viveu de música, foi a minha principal referência artística, mas a verdade é que ele não achava bem eu menino seguir seus passos no fole. Mas eu tinha talento, teimava, as pessoas insistiam: 'deixa o menino tocar, Seu Dideu', que é como ele era conhecido, e aí não teve saída. Eu comecei a tocar e ganhar o meu dinheirinho com a música. Meus irmãos, o Bastinho e o Luizinho, fizeram a mesma coisa que eu" .

As primeiras músicas de Zé Calixto surgiram sem compromisso profissional: com a sanfona, ganhava os tostões com o qual a mãe comprava tecido para costurar, à mão, sem maquinário algum, suas calças curtas de menino. Aos 12 anos, já enfrentava sozinho bailes e festinhas caseiras. Nos 26 já estava sendo reconhecido. "Foi quando eu decidi me casar", diz.

O convite para tocar no Rio de Janeiro, que mudaria o destino de sua carreira, veio ainda durante a lua-de-mel: "O compositor Antônio Barros, naquele ano, me convidou para tocar no Rio de Janeiro e me apresentar a uma gravadora. Fiz uma viagem de oito dias de ônibus numa estrada de chão de terra batida, mas valeu a pena. O José Loureiro, o então diretor da empresa, gostou do meu jeito na sanfona, e redigiu o primeiro contrato de minha vida. Foi ele quem me 'batizou' com o nome artístico de 'Zé Calixto'. Pouco tempo depois eu estava no estúdio".

Com o primeiro dinheiro que ganhou, o sanfoneiro voltou à Paraíba para trazer sua “calanguinha” – modo carinhoso como ele às vezes chama D. Rita – para o Rio de Janeiro, onde os dois vivem desde então.

Afinação na sanfona e no bilhar

Na sala de jogos do Hotel Fazenda Rochedo, onde ficou hospedado, Zé Calixto disse que sempre gostou de bilhar francês. “Pra jogar a carambola, é preciso ter boa pontaria e afinar o olhar, ter muita segurança nas mãos, porque o erro praticamente não pode existir”, diz. Talvez esse exercício de afinação do olhar e firmeza nas mãos seja o que lhe ajuda na busca pela exatidão na afinação do fole: "Quando vou à Feira de São Cristóvão, acompanho a venda de instrumentos musicais. Caso seja necessário, estou ali para afinar. Tenho capacidade de executar esse serviço por conta da minha formação, por ser nordestino, por saber por onde e como passam os sons".

Segundo Zé Calixto, que faz em seus instrumentos uma afinação “de ouvido” (a qual, na sua opinião, é superior à feita com diapasão em oficina), a afinação dada pelo músico nordestino “é única, nem os criadores dos instrumentos são capazes de reproduzir a escala cromática que só o nordestino conhece”. O músico leva até 15 dias para afinar uma sanfona de oito baixos, e 30 no caso de um acordeão grande. Bom mesmo é apreciar o resultado de tanta perícia e esmero, como no café da manhã na Pousada Martinez em que Zé Calixto, ao lado de Ronaldinho do Cavaquinho e Deon – figuras já conhecidas de quem visita Conservatória –, emocionaram com canções como “Último pau de arara” e “Delicado”.

A viagem de Zé Calixto a Conservatória foi, sobretudo, uma possibilidade para que, como outros artistas da UBC que já visitaram a localidade (por conta do projeto “Viva o Compositor”), ele pudesse ver de perto a cidade que não se esquece desses grandes compositores brasileiros, a cidade que executa suas obras, venera suas imagens nos museus e recebe cada um deles como se fora um velho amigo que nunca viram, mas... que sempre ouviram.

Discografia de Zé Calixto
• Forró de Seu dideu/Polquinha brejeira (1960) Sinter 78

• Oito baixos no frevo/Forró em Serra Branca (1960) Sinter 78

• Forró em Campina Grande/Xote em fá (1960) Sinter 78

• Bodocongó/Bossa-nova em oito baixos (1960) Sinter 78

• Arrodeando a fogueira/Apertadinho (1961) Philips 78

• A pisada é essa/Tempo de milho verde (1963) Philips 78

• Zé Calixto (1973) CBS LP


Fonte: http://www.dicionariompb.com.br/

Fotografia: Nubbia

O projeto “Viva o Compositor” conta com os seguintes parceiros em Conservatória:
- Hotel Fazenda Rochedo
- Pousada “Sol Maior”
- Pousada “Serras Verdes”
- Pousada “Martinez”
- Restaurante “Dó, Ré, Mí”
- Museu da Seresta e Serenata
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*Os autores do texto: Clarissa Alves Machado é jornalista e Luiz Carlos Prestes Filho é diretor de filmes documentários para TV e cinema.

Nota: Bastinho Calixto, segundo filho de Seu Dideu e D. Maria Calixto, fez músicas que fizeram sucesso na voz de artistas como Tim Maia (“O Adeus de quem tanto amei”), Elba Ramalho (“Toque de fole”) e o Trio Nordestino ("Vamos lê lê lê"); Luizinho Calixto, filho caçula, também é sanfoneiro. Ambos são sócios da UBC.
(Matéria publicada no site da União Brasileira dos Compositores em 12/02/2008 )

terça-feira, 17 de julho de 2007

The once and future king

“The once and future king” is a reinterpretation of King Arthur’s legend by TH White. The novel was first published in 1958, and considering the poor condition of the book I have in my hands – its cover as well as some of its pages are gone, there are several pages dog eared at the corners, not to mention they're completely yellow –, I have reason to believe I’m reading one of the first editions…

The book is divided into four chapters. The first one, “The sword in the stone” chronicles the story of Wart, a boy who dreamed of being a knight but who was condemned by birth and rank to be a mere squire (a kind of personal servant attendant upon a knight) of his foster-brother, Kay. Nonetheless, Wart turns out to be the only one able to pull out the Excalibur sword of the stone and anvil, being, therefore, “right-wise King born of all England”. From now on he must be called only King Arthur, and even his former guardian, sir Ector, and his foster-brother must kneel down before him.

The second part of the book, "The queen of air and darkness",

(to be continued)

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Amor à segunda vista (viagem a Conservatória)

No último final de semana, visitei a cidade de Conservatória com a minha filhota e o “carinha” que, descobri, eu amo. A primeira vez que estive lá foi há dois anos, quando trabalhei acompanhando grupos de trabalho que se reuniam na Casa de Cultura de Conservatória para pensar o Arranjo Produtivo Local (APL) da cidade (um dia falo melhor dessa história). Fui então a convite – coincidência? – desse mesmo carinha...

Essa primeira passagem na cidade se deu numa quarta-feira, dia de semana. Tudo o que vi foi uma Conservatória calada, silenciosa, de portas fechadas. Essa imagem, somada ao fato de que eu estava a trabalho, deixou a impressão de que a cidade não tinha nada demais. O mais interessante daquela visita havia sido a experiência de tranqüilamente abandonar a minha bolsa na Casa de Cultura quando saí com um grupo para dar uma volta na pracinha da cidade, algo inusitado para uma carioca!

A Conservatória que conheci nesse final de semana, porém, era outra. É nos finais de semana que essa dama bota o mais belo vestido, veste o sorriso mais catito e cata a poesia mais bonita para encantar os turistas que vêm conhecer a cidade das serestas e serenatas... (Em tempo: somente visitando Conservatória é possível entender a diferença entre seresta e serenata, que nem o Aurélio nem a Larousse costumam indicar: seresta é o canto em ambiente fechado; serenata, o canto ao ar livre, à noite, sob a luz das estrelas e do luar).

A chegada. Nós fomos muito bem recebidos na pousada das Serras Verdes, de um casal maravilhoso, o Danilo e a Regina. Danilo é um piadista convicto, está sempre fazendo graça, tem um riso que faz a gente se sentir em casa. Regina é uma pessoa incrível... carinhosa, generosa, uma alma que encanta em poucos instantes. Conheci dois dos filhos do casal, a Rejane e o Fabrício. A Rejane tem uma menininha linda, a Luíza, que virou coleguinha da minha filha.

A pousada tem uma estrutura similar a um camping, com seis chalés simples e charmosos. Nós chegamos num sábado cheio de sol; fiquei surpresa com o calor que fazia (quando o sol se põe, no entanto, a temperatura cai sensivelmente). Assim que chegamos, fomos brincar de gangorra... não nego que uma das melhores lembranças que tenho dessa viagem é o sorriso do meu eleito brincando de gangorra comigo e com a Gabriela... Gabi, aliás, se esbaldou tanto correndo de um canto a outro, que acabou indo dormir, sem relutância, às 19h - coisa absolutamente inédita!

Uma outra Conservatória. Foi na noite desse sábado que conheci esse outro lado da cidade que a tornou tão popular. Festas julhinas inesquecíveis nas pousadas, bares e restaurantes funcionando a todo vapor, e a Serenata - essa espécie de catarse musical da cidade - saindo tradicional e pontualíssima pelas ruas do centro urbano de Conservatória.


Conheci o Cine Centímetro, um lugar simplesmente inacreditável: o espaço é uma réplica do Cine Metro Tijuca, demolido nos anos 1970. Mas contando não tem graça; só conhecendo para entender. Saí simplesmente maravilhada!

Não tive a oportunidade de visitar a Serra da Beleza, lugar onde, dizem, já ocorreram e continuam ocorrendo uma série de avistamentos ufológicos. Mas tudo bem. Não vi discos voadores, mas o céu de Conservatória, cheio de luzes e luzinhas, já valeu a pena.

Como sempre acontece quando eu estou do lado desse grande amor, eu saí muito mais rica. Aprendi, conheci e senti um mundo de coisas. Sorvi outros ares. Voltei cheia de idéias e de inspiração – e com uns gramas a mais, diga-se de passagem (será que o amor engorda?).

É sabido que a vida é feita de encontros, desencontros e reencontros - escrito assim, fica até clichê. Mas preciso falar desse jeito para explicar que o meu amor por Conservatória é um amor de reencontro. Um amor de retorno. Um amor forte. A imagem que vai ficar da cidade é a última: uma Conservatória viva, mágica, romântica e envolvente. Inconcebível se desgarrar dela.